Dear Lover

Hoje me lembrei de você. Hoje eu revivi nossa história toda, e foi como se você estivesse aqui de novo. Resolvi registrar, é uma forma de voltar a acreditar nos acasos.

Lembro como se fosse hoje o dia em que me adicionou no tal Messenger, depois de roubar meu endereço do seu colega de apartamento. E tudo isso porque eu enviei a música My Curse do Killswitch Engage e você achou o máximo eu conhecer a banda. Lembro de você dizendo que seu colega estava certo: eu seria seu vício. Lembro de você dizendo que íamos nos apaixonar enquanto eu negava loucamente. Você nunca acreditou no meu lema de que coisas virtuais não existem né? Você foi o responsável por quebrar essa minha teoria em pedaços.

A música sempre foi um dos nossos laços, não é? Lembro do dia que nos vimos pela primeira vez. Show da Bandanos no Curupira Rock Club. Você viu no Orkut que eu estaria lá e fez questão de dizer que iria também, embora não estivesse forçando nada… Você sabia que até esse momento eu não te levava a sério e estava em outra(s).

Quando eu te vi de longe, paralisei. Você era infinitamente mais lindo do que eu imaginava! Lembro da maneira como se vestia, da maneira como interagia com seus amigos, e sobretudo da sua energia. Você era definitivamente demais pra mim. Me escondi, mas você me achou e não teve jeito. Desde o primeiro abraço, não conseguimos mais nos soltar… O seu beijo ainda é o melhor que já provei.

Uma semana depois estávamos namorando. Estávamos tomando sorvete sentadinhos num daqueles bancos do único shopping da cidade quando você começou a tremer, segurou minha mão e eu ri. “Tá bom, eu aceito!”. Você envermelhou, me abraçou e abordou algumas senhoras para dizer: “Olha, essa gata é minha namorada agora!”. Você nunca teve vergonha de me fazer sentir vergonha.

Descobri que você era demais pra mim. Não no sentido de superioridade que eu havia imaginado, mas nossas vidas sempre foram muito diferentes. Eu, uma universitária/estagiária certinha, morando com os pais num bairro distante, tirando boas notas, fazendo autoescola, sem nem conseguir pintar o cabelo de azul. Você, um cara mais velho que eu, descolado, morando com amigos bem longe de casa, ralando para pagar as próprias contas, tatuado e com aquele bendito piercing no septo que meu pai condenava. Aliás, até hoje me pergunto qual foi seu truque para fazer meu pai te tratar bem e conversar tanto com você. Minha teoria é que esse lado “bicho solto” de ambos permitisse uma conexão. Já minha mãe foi fácil, você conquistou com carinho e bajulação.

Sempre soube que não duraríamos muito. Eu ia querer mais de você, e você, menos de mim. Eu ia exigir diplomas, certificações, responsabilidades… E você um pouco menos de caretice. Sempre soube também que você me amava muito. Me amava o suficiente para me fazer ver quanto valor eu tenho. A maneira como você me incluiu na sua vida da noite para o dia foi maluca. Eu recebia mensagens dos seus amigos, que também seriam meus. Você já tinha contato com todas as minhas primas e conquistou o título de meu “melhor namorado” (ironicamente esse título ainda é seu). As minhas tias diziam “Como ele é bonito né? Tem um bocão, do jeito que você gosta”.

Meus amigos achavam legal que eu tivesse um novo namorado, ainda mais fazendo gutural naquela banda boa. Eles me apoiaram, mas sabiam desde sempre que eu não suportaria os desencontros que a rotina nos proporcionava, que eu, no auge dos dezoito anos não queria me sentir mais responsável do que já era. Não demorou para que eu começasse a me interessar por outro alguém e decidir que era o fim. Antes que eu anunciasse a decisão, você agiu como um babaca e eu não tive dificuldades em dizer adeus. Traições, excessos, mentiras.

Lembro como se fosse hoje da última vez que te vi, quando fui entregar aquele seu box cheio de CDs que havia me emprestado. Lembro da sua tentativa de me convencer a ficar. Lembro da minha dificuldade em dizer qualquer coisa e da raiva que senti por tudo. Lembro do seu choro sincero. Lembro daquele beijo esquisito que em nada parecia com o nosso. Lembro de achar exagerado você dizer “vou te amar até morrer”.

Eu achei que a vida seguiria fácil depois disso, que nossos caminhos não se cruzariam e quando nos encontrássemos, nada mais seria incomodo. Você voltou com o passado, eu segui com o futuro. Num dia comum, recebo a notícia de que você morreu. Você tinha sido encontrado naquele quartinho em que passamos horas e horas. Seu corpo já estava em estágio avançado de decomposição. Seus restos foram levados o mais depressa possível para sua família em Guarulhos.

Não consegui chorar. Tive uma crise de riso, escolhi roupas para um show no fim de semana, liguei música alta. Se eu não acreditasse, não seria verdade, simples assim! Meus pais observavam tudo com ar de espanto. Chorei dois dias depois, deixando meu gato encharcado de lágrimas.

Recebi mensagens de seus amigos e alguns familiares. Poucos me desejavam força. Muitos me cobravam explicações e acusavam. Li e ouvi coisas absurdas de pessoas que nem conhecia e que nunca foram parte da nossa história. Me acusaram de ter te abandonado. Me culparam por sua tristeza e desânimo. Disseram que se não fosse meu descaso, você não teria tido o AVC, estaria vivo. Algumas dessas pessoas, sei que te fizeram mal e te deixaram na mão. Entendi que a vida pode ser muito irônica e as pessoas, absolutamente estúpidas quando se julgam justiceiras. Eu nunca me senti culpada, nunca fui. Não sou.

Decidi, desde aquela missa em sua homenagem, que jamais pisaria em uma igreja. Por nós e pelos Deuses. O tempo passou, você se tornou uma lembrança. Os julgamentos não me afetam mais. As coisas seguiram como deve ser. Mas ainda lembro de você. Sem dor, sem dúvidas. Lembro de você como parte da minha história. Por vezes, me pergunto se existe mesmo essa vida após a morte, e se você já reencontrou os nossos pais. Porque os homens que me amam e acreditam em mim morrem repentinamente e me largam aqui? Porque isso sempre foi verdade: tanto você quanto meu pai sempre acreditaram em mim. Sempre se orgulharam.

Hoje eu relembrei aquela sua teoria sobre oscilarmos, ainda em vida, entre o céu e inferno. Hoje precisei erguer a cabeça para não cometer os mesmos erros. Precisei, ainda que em pensamento, te ouvir dizer: “Você vale muito. Você não pode aceitar menos do que merece. Se isso significa arrebentar com tudo, faz!”. Hoje contei a nossa história. Por mim e por você. Saudades.

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